sexta-feira, 24 de abril de 2009

.Desesper(o)ança.

Posted in by teoria_de_viver | Edit

Largou o teclado e levantou-se vagarosamente para que a cadeira não fizesse seu tradicional estralar vindo daquele pé que não tem mais a rodinha. Chegou até o portão se arrastando e foi àquela padaria que abre antes do que qualquer outra coisa no bairro, comentava a vizinhança que a padaria abria antes mesmo que os bares mais freqüentados a noite se fechassem. Pediu um Lucky Strike – Não, a preferência dele não mudara desde a ultima vez – e pagou com uma nota de vinte amassada que estava em um dos bolsos da parte de trás da calça jeans que ele ainda nem ao menos trocara depois de chegar da aula. Pediu também um Mentos tradicional e chocolates... sentiu que faltava algo que dessa vez não encontrou nas prateleiras daquela padaria vazia, nem todas as moscas que pairavam ali sobre os pães doces e sonhos tiraram a atenção dele que se concentrava nos rótulos de bebidas no freezer que ele há anos não reparava. Estranhou seu reflexo na porta de vidro do freezer – parou alguns segundos – esticou a mão até porta e a abriu, sentindo o frio vindo do interior daquilo. Aquilo ainda não preenchia o vazio dele... desistiu, fechou a porta e colocou o troco no bolso. Vagarosamente rastejou até sua casa, apreciando o silêncio da cidade vazia, que àquela hora pertencia apenas àquela meia dúzia de pessoas que esperavam o ônibus pra voltar pra casa ou ir pro serviço “– Ah, meu chefe que me espere!”.
Entrou em casa e viu que tinha novas mensagens, mensagens essas que ele preferiu nem conferir, clicou no play e ouviu o resto daquela musica que estava a ouvir há horas. Clicou no repeat e com um brilho nos olhos, esperou em vão que mais algumas repetições daqueles versos enfim pudesse saciar aquela saudade do que ele ainda não conheceu...
Abriu a carteira de cigarros, tirou o primeiro, o encarou e como fazia antes, fez um desejo – ele ainda não sabe se comprou o maço de cigarro para fumá-lo ou para apenas fazer o desejo – virou-o de ponta cabeça e colocou-o novamente na carteira. Pegou um caderno pequeno de folhas de papel reciclado, uma lapiseira – ele odiava escrever com elas – uma borracha, aquela almofada que imitava os desenhos da pele de uma onça e sentou-se num dos sofás. Olhou a foto que tinha colocado no celular e engoliu o choro “-Está cedo ainda”.
Refletiu por alguns segundos olhando para aquela foto até que a proteção de tela do celular entrasse e apagasse-a, desejou que sua mente também possuísse uma “proteção de tela”, ou o coração, um outro tipo de proteção. Levantou e foi até a estante: Nomes conhecidos e marcas famosas habitam os rótulos daquelas garrafas, todas elas foram presentes. Ele pegou a que tinha a marca mais famosa e que parecia ser a mais cara, afinal, ninguém ali iria beber aquilo mesmo. Tirou a tampa e sentiu o cheiro forte vindo de dentro da garrafa, o liquido era marrom amarelado e o sabor ele desconhecia. Encheu um copo, que a principio, serviria de cinzeiro e como via nos filmes, bebeu tudo de uma vez, num gole só: viu estrelas e sentiu o peito a queimar, fez uma careta e esfregou os olhos que deixaram escapar uma umidade exagerada para somente lubrificar os olhos. Olhou pro teto e repetiu o nome dela uma dúzia de vezes. Pegou o maço de cigarro, e acendeu um deles com o isqueiro à gás que ele guardara desde a época do ensino médio. Teorizou aos sussurros que acender cigarros era igual a andar de bicicleta: nunca se esquece como. Fitou novamente a foto no celular, dando uma longa tragada e hipnotizado, quase esquece de soltar a fumaça, fazendo-o tossir. Deu mais duas tragadas longas e derrubou uma parte das cinzas no copo. Olhou para o os ponteiros do relógio e sentiu que estava pronto. Empenhou-se a colocar as palavras naquelas linhas que com o efeito do álcool tornavam-se sinuosas. Jogou o que sobrou do cigarro no copo e tomou um gole da bebida no próprio gargalo.
Uma madrugada, algumas juras e incontáveis injurias, uma, duas, três folhas e meia preenchidas pelos traços tortos e assimétricos daquele grafite 0.5, uma garrafa pela metade e dezenove cigarros fumados em poucas horas entre outras estatísticas e o vazio ainda preenchia aquele Ser.
“ - Quem sabe, esse cigarro virado preencha-me e eu enfim comprove que eu estava certo ao crer que tinha encontrado a minha metade...”
Uma coisa que sempre o deixou desesperançoso foi o seu excesso esperança...












xxxFAHxxx

2 Comments


  1. Mari =] says:

    19 cigarros??

    OMG o.O

    pra q pulmões?
    ieieieieiejie

    Faaaaaaaaaaaaaaah *-*

    meu tesooooouro...fica bem tá?!

    s2

    24 de abril de 2009 às 22:17

  2. Mariana says:

    Adorei, muito lindo.
    Estava lendo outras coisas que foram escritas por você e fiquei encantada... lindíssimas.
    Vou acompanhar o blog.

    27 de abril de 2009 às 07:23