Doze...
Sim, foram doze vezes que o telefone tocou na ultima ligação. Ninguém atendeu. O aparelho telefônico estava delicadamente acomodado em cima do travesseiro sob o sofá. O chamado era abafado pela fronha que cobria os travesseiros, mas não foi esse o motivo pelo qual ele não foi atendido, quem lhe dera se fosse.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu aquela noite, nem com quem ele conversou e nem ao menos se ele conversou com alguém. “-Deve ter se matado...” foi o que muitos especularam. Só se sabe que o telefone estava la e não atendeu nenhuma ligação, como pode-se comprovar mais tarde, depois da perícia da policia cientifica.
O corpo estava no chão, caído, com o nariz machucado, sem nenhuma mancha de sangue, nem sinal de estrangulamento ou asfixia, os braços estavam junto ao corpo, como se estivessem sido colocados naquela posição de propósito, as pernas seguiam o desenho e a direção dos braços, o pé direito calçado por um chinelo, o esquerdo descalço. Os cabelos limpos, penteados e com um odor agradável, algo cítrico e ao mesmo tempo doce, Erva-Doce talvez, ninguém sabia. Os olhos estavam suavemente fechados, como se ali dormisse calmamente e estivesse prestes a acordar a qualquer momento.
Era por volta das 7 da manhã quando invadiram seu túmulo em forma de quarto, logo após o silêncio interminável que estava a vagar do lado interno da porta. Não se sabe ao certo quem foi que o viu primeiro, mas certamente tomou um susto, pensava-se que estivesse desmaiado - como os humanos são inocentes, certamente não entendem nada sobre a morte, e isso eu descobri muito antes daquela madrugada.
O computador estava ainda ligado, apenas o monitor estava em descanso, isso ninguém percebeu até a chegada da policia. Ninguém se atenta aos pequenos detalhes quando estão em estado de choque, porque se reparassem, logo não estariam nesse estado.
Uma visão panorâmica: um Computador ligado, uma TV empoeirada, um vídeo cassete que raramente era usado, um telefone sob um dos sofás desarrumados, dois travesseiros, dois guarda-roupas, dois pares de tênis, livros, muitos livros e folhas avulsas espalhadas pelo quarto, tantas folhas que dariam para compor um daqueles livros que ali estavam, um relógio, duas pelúcias, uma foto, uma caneta e um cadáver. Eu pude ver isso antes que qualquer um que ali estaria horas depois, não se precipite, não sou um assassino, apenas um encarregado, mas deixarei que me conheça quando realmente for a hora certa.
Não foi dito nenhuma palavra, mas se alguém pudesse ouvi-lo, certamente confessaria que os anjos haviam visitado-o aquela noite, tanto o das asas colorida, como o das brancas, estavam novamente vestidos... um tinha a vestimenta totalmente clara, enquanto o outro vestia roupas escuras, mas não se engane, nem julgue nada antecipadamente, terá a sua vez de pensar o que quiser quando ver os rostos das criaturas. Não houveram palavras, nem sussurros, nem ao menos respiração.
Ele só precisava dormir.
Mas ninguém entendia ao que ele se referia. Na realidade, ninguém entendia nenhuma palavra que saia da boca dele, parece que falavam idiomas distintos. Em uma noite como qualquer uma outra, depois de um dia normal, após acordar de um sono que havia tido sonhos, depois de deitar-se para dormir: um dia como hoje.
Foi cogitada a hipótese de suicídio, mas como? Não haviam ali formas possíveis para tal ato, e aparentemente nenhum motivo... aparentemente. Como espontaneamente alguém pode deixar a vida assim, sem nenhuma atitude física? Será que o inconsciente é assim mesmo tão poderoso a ponto de tal proeza? Mas se era um desejo, como poderia ser gerado pelo inconsciente? Questões para serem analisadas. Talvez seja o destino, mas ele nunca acreditara nisso, acho que eu era o único que lembra-se disso. Olhando daqui posso ver, sentir e ouvir os seus desejos, pensamentos, vontades e mentiras que não me atingem. Nessa noite foram reveladas suas fotos, textos, planos, palavras, desejos, confissões, segredos e tudo aquilo que ele tinha guardado para si, as únicas coisas que ele realmente tinha... e ninguém perguntou se ele se importaria de perder aquilo tudo.
As coisas foram guardadas, as palavras silenciadas e tudo voltou ao normal após uma semana...
Convivemos com mortes todos os dias, pessoas queridas continuam ao seu lado apesar de morrerem varias vezes ao dia. Certamente você não acreditaria se eu dissesse que angustia causa morte, tente explicar como um ser deixa a vida sem que nenhum de seus órgãos deixe de funcionar a não ser a bomba natural.
Uma nota: Em seu braço direito estava escrito em uma letra minúscula, muito bem trabalhada, como se alguém ficasse ali durante horas desenhados as letras, quase inteligível a seguinte frase: “Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa - por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos”, uma frase de um autor que ele amava, um autor que ele confessou gritando que amava, e eu te pergunto se alguém ouviu. E é claro que você sabe a resposta.
...No braço direito... no braço direito de uma pessoa destra.
Como já foi dito anteriormente: “Existem coisas que os sonhos não explicam”
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Fragmentos de Uma Tragédia...
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teoria_de_viver |
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